É empresário, consultor e cliente de turismo de natureza. E é nesta última condição que gosta de se colocar quando avalia a evolução do segmento. Numa conversa informal na tranquilidade das Casas do Vale do Ninho, na aldeia de Ferraria de São João, Pedro Pedrosa, gestor da A2Z Walking & Biking, fala sobre a evolução recente do setor, defende uma gestão mais ativa das infraestruturas, a criação de um produto composto e a necessidade de melhorar as ferramentas existentes para gerir, manter e cativar os novos públicos que estão a descobrir o turismo de natureza no interior do país. “Temos que dar o salto para um novo patamar de exigência”, diz.

O turismo ativo está a resistir à crise, como dizem alguns indicadores?
Em termos de alojamento nas casas de turismo em espaço rural, à parte dos meses que fomos obrigados a estar confinados, foi uma surpresa agradável. Quando as pessoas puderam sair e, em particular, no verão do ano passado, houve uma resposta incrível e encheu tudo.

Turistas nacionais, presumo.
Sim, nós tínhamos dois terços de estrangeiros nos nossos alojamentos e passámos a ter 100% de portugueses. Foi o melhor ano de sempre neste aspeto. Portanto, fruto de uma maior otimização das reservas e de estadias mais longas, tivemos realmente uma resposta incrível do mercado português ao turismo no interior ou turismo no espaço rural ou de natureza, como lhe quiserem chamar.

É um turista diferente daquele que visitava a região nos anos anteriores?
Notámos que a maioria destes visitantes nunca tinha feito férias no interior. São pessoas com bom poder de compra e que antes faziam férias no estrangeiro ou algo diferente das típicas férias de praia. Tivemos aqui portugueses a passar uma semana de férias, algo que nunca aconteceu. Todos chegavam com muitas dúvidas sobre se iam ter umas boas férias, porque não sabiam o que fazer e o que havia para fazer, o que é uma chamada de atenção para a comunicação necessária em relação ao turismo no interior. Mas sinto que saíram daqui não só contentes, mas com vontade de voltar porque diziam que tinha ficado muito por ver e fazer. Foi uma grande aprendizagem, tanto para as pessoas que vieram, como para nós, que nunca acreditámos muito que este público iria chegar.

Acredita que este novo público veio para ficar, que não é apenas uma tendência derivada do atual contexto sanitário?
Essa é a grande dúvida. Quando se voltar ao normal, este público poderá voltar a viajar e a fazer as férias que fazia antes ou incorporar este tipo de férias nas suas opções. Muitos dos estrangeiros que nos visitam, optam por fazer uma semana na praia e outra no campo. Por cá, esta divisão ainda não é padrão, e eu acho que devia ser alimentada.

Como foi ser empresário do turismo neste passado recente?
Na componente internacional foi um grande desafio, porque o segmento estrangeiro é o mais significativo na nossa empresa e nós temos 20 pessoas a trabalhar a tempo inteiro, algumas na operação turística, outras na consultoria e outras nas duas coisas. Emagrecemos o que pudemos, mas mantivemos sempre a operacionalidade, porque o mercado podia abrir a qualquer momento e tínhamos pedidos. Conseguimos deixar apenas as pessoas que estavam com contratos temporários e mantivemos 14 pessoas a tempo inteiro. Estivemos sempre a fazer coisas, só que não produtivas porque não originavam faturação. Obrigou-nos a dar outras coisas para fazer às pessoas, mas também nos permitiu fazer outro tipo de tarefas. Ainda assim, com os apoios governamentais que, no nosso caso, funcionaram, encerrámos as contas de 2020 com resultados operacionais positivos.

Que tipo de tarefas?
Aproveitámos para renovar o sistema informático, temos um novo sistema de gestão, e criámos produtos novos que estão preparados para lançar. Aproveitámos para arrumar a casa e prepará-la para a abertura.

"Em Portugal, há uma fobia com a palavra manutenção.
'
Compra-se' e depois logo se vê, seja o que for.
Há mau planeamento
".

Pode desenvolver alguns desses produtos novos?
Um deles foi o “responsible trails” - uma plataforma agregadora de trilhos com padrões elevados de manutenção e conservação. Reparámos que as pessoas se queixam do estado dos percursos e vimos aí uma oportunidade e uma necessidade. Em Portugal, há uma fobia com a palavra manutenção. “Compra-se” e depois logo se vê, seja o que for. Há mau planeamento. Nós, através da área de consultoria, implementamos e ajudamos a implementar percursos e tem sido uma grande frustração ver que vão perdendo qualidade devido à falta de manutenção. Muitas vezes, fruto da má promoção ou ativação, um percurso quando começa a ser conhecido já está em mau estado.

Mas é da responsabilidade do promotor manter os trilhos em condições?
É, mas a manutenção nem sempre é incluída no orçamento da criação de um percurso. Nem o custo, nem a forma como se vai fazer essa manutenção. Este planeamento devia estar na origem dos projetos, mas não está.

 

Monitorizar os investimentos

É uma pessoa viajada e conhecedora do que se faz no estrangeiro nesta matéria. Como é lá fora?
Há modelos de gestão centralizados, em que a manutenção é financiada por fundos públicos. E há outros, como o norte-americano ou o australiano, que são semelhantes a parcerias público-privadas, em que fundações ou outro tipo de organizações não governamentais assumem a gestão das infraestruturas (percursos).


Há algum exemplo que goste de salientar?

Uma das referências mundiais é o Appalachian Trail (EUA), que é gerido por uma fundação composta pelos utilizadores e associados e financiada por fundos próprios e públicos. Promovem ações de voluntariado, informação, aquisições de sinalética e outras. O Parque Nacional das Torres del Paine é outro bom exemplo. Aqui as pessoas pagam cerca de 30 euros para entrar e os abrigos são concessionados, originando receitas para a gestão e manutenção do parque. É um modelo mais fechado, mas que também tem os seus resultados.

Em Portugal não há modelos de gestão semelhantes?
Não. O mais aproximado que eu conheço é o praticado pelas organizações de gestão de destino e marca, como a “Rede das Aldeias do Xisto”, que assumem elas próprias o desígnio de gerir e captar fundos para assegurar a manutenção dos percursos. Por exemplo, a rede “Aldeias Históricas de Portugal” fez muito pela Grande Rota das Aldeias Históricas, que estava já muito degradada, e conseguiram reanimar o percurso nos últimos anos. Mas agora temos que entrar numa segunda fase que é a monitorização a quantificação do impacto económico dos percursos. E, para isso, tem que existir uma gestão ativa.

E na Europa, há alguma referência?
O modelo francês é interessante. Neste caso, o estado e as organizações que gerem marcas territoriais têm um papel muito relevante, tanto ao nível do investimento como da monitorização. Por exemplo, no percurso Eurovelo, um percurso ciclável que só em dois troços soma 900km, foi instalado um sistema de informação e realizados estudos que permitem saber quantas pessoas fazem o percurso, qual a sua origem, quanto e onde gastaram dinheiro e o que mais valorizaram no percurso, informação que permite quantificar o retorno do investimento feito. Esta monitorização ainda não existe em Portugal. A exceção será talvez o que se está a fazer na “Rota Vicentina”, onde a entidade gestora, composta por agentes públicos e privados, está a começar a fazer este trabalho. Seja qual for o modelo, é importante quantificar o retorno do investimento feito para saber se se está a investir bem e no sítio certo.

Uma das tendências atuais de investimento são os passadiços…
Sim. Estão a investir-se centenas de milhares de euros, sem saber se vale a pena e estão a cometer-se inúmeros exageros. Eu não consigo ver sentido num investimento de centenas de milhares de euros num passadiço à beira de uma estrada ou ao lado de um caminho pedestre. E depois há a manutenção que, mais uma vez, acho que não está a ser considerada.

"Seja qual for o modelo,
é importante quantificar o retorno do investimento feito
para saber se se está a investir bem e no sítio certo".

Mas os passadiços atraem muita gente, não?
Sim, os passadiços estão a atrair um novo público, o que é bom, mas são turistas que nunca fizeram turismo de natureza e que não têm a sensibilidade ambiental dos turistas de natureza. As pessoas que procuram os passadiços não o fazem pela natureza, mas pela paisagem, não há um interesse verdadeiro na valorização e preservação da natureza. E depois provocam enchentes. Eu tenho clientes que se recusam a ir a locais que tenham passadiços porque presumem logo que esteja muita gente no local.
As bicicletas elétricas quando chegarem terão um efeito semelhante no segmento dos percursos cicláveis. Mais uma vez, haverá um alargamento da base de praticantes, o que é bom, mas isto deve originar um reforço da sensibilização ambiental. Lá está, tem que existir uma gestão cada vez mais ativa das infraestruturas.

Quem é que pode fazer essa gestão ativa ou concertar esse esforço. É necessário criar alguma nova entidade para isso?
Acho que não é necessário criar mais entidades. Tem é de haver reconhecimento e foco entre os atores que já estão no terreno. Arrisco até a dizer que algumas entidades já existentes só não fizeram mais neste campo, porque tentaram fazer demasiadas coisas ao mesmo tempo e dispersaram-se. Agora, terá de ser uma organização supramunicipal, porque este tipo de organização
não se consegue fazer ao nível dos municípios.

 

Só marketing, já não chega

No início falámos sobre a onda de turismo no interior gerada pelo contexto pandémico. O que é que se pode ou deve fazer para a tornar perene e não uma moda que passe com a pandemia?
Deve-se ligar os agentes existentes, que são a base do produto composto. Um exemplo: aqui há uns tempos um município pediu ajuda à A2Z para trabalhar os conteúdos de turismo no site do município, porque eles tinham um site fraco nesse aspeto e porque tinham ficado assustados quando começaram a fazer o trabalho. Isto é, eles não sabiam sequer quantos alojamentos, camas e restaurantes existiam no município e ficaram assustadíssimos. A ligação entre os agentes é a base do produto composto. Eu já nem estou a falar de criar “pacotes”, mas apenas esta ligação, esta “cola”, que ainda não está suficientemente trabalhada. São estas redes de contactos que dão origem ao produto composto, seja ao nível informal – boca a boca – ou formal através da construção de pacotes de ofertas que custam “x” euros e incluem alojamento, almoço no restaurante “y” e experiências “z”. Isto era uma grande ajuda porque é onde se gasta mais tempo com os clientes, a desenhar-lhes um programa para eles ocuparem o tempo enquanto estão por cá.

Está a dizer que devem-se criar programas predefinidos ou a dar mais informação para que os turistas os possam construir?
Tem que existir as duas coisas. Há pessoas que não se querem chatear com nada e querem comprar um programa predefinido e outras que querem ser inspiradas, que decidem vir porque sabem que poderão fazer isto e aquilo porque sabem que é possível, porque existe.

Se os turistas vierem só atrás de uma imagem, de um baloiço,
tiram a fotografia para publicar nas redes sociais e vão embora.

Mas isso, ao ser feito por entidades como a ADXTUR e a iNature, não será o setor público a entrar no campo dos privados, como as agências de viagens, por exemplo?
Quando eu comecei a trabalhar em turismo era uma discussão frequente: se as entidades gestoras das marcas territoriais deviam ser DMO – Destination Management Organization - ou PMO – Product Management Organization. As DMO são montras e promotoras e depois deixam que os agentes privados se organizem, uma PMO promove os produtos e coloca-os à venda num marketplace. No início era esta a discussão, mas hoje está ou pouco esbatida. Um exemplo, a ADXTUR não sendo PMO tem um marketplace e vende. Ou seja, não só promove o produto como o comercializa.

As PMO são o caminho a seguir?
Acho que sim, até porque a tecnologia veio proporcionar essa situação. Hoje, toda a gente pode vender, até um município, até o Turismo de Portugal podia e devia vender. Por que é que não vende? Tem um site onde investe imenso em promoção mas depois não vende. Acho que está mal. Hoje em dia, a maioria dos destinos do mundo estão a um clique de distância. Agora, quais as condições para fazer parte destes marketplaces, se se deve pagar ou não, essa é outra questão.

Não basta fazer marketing, é preciso facilitar a concretização das decisões, é isso?
Têm que se adotar soluções que permitam o atalho entre o turista e o agente de turismo e, num segundo passo, fazer a ligação entre o turista e a D. Isilda, uma senhora aqui da aldeia que faz queijo da forma tradicional, e que as pessoas gostariam de ver e conhecer. O marketing é muito importante, mas a pessoa não vai lá só pela imagem.

Essa aproximação e apresentação às gentes locais é muito valorizada.
Tem que se aproximar os turistas das pessoas que estão no território. A minha grande crítica às entidades gestoras de marcas territoriais é o distanciamento das pessoas. Não há foco nesta questão ou então surgiram outras preocupações, como angariar dinheiro, ir a feiras internacionais, etc, e são legítimas. Mas fica aqui um vazio que é preciso preencher, porque a tendência do turismo é outra: as pessoas querem chegar aqui e conhecer a D. Isilda, sejam estrangeiros ou portugueses. Se os turistas vierem só atrás de uma imagem, de um baloiço, tiram a fotografia para publicar nas redes sociais e vão embora.

E como é que isso se contraria?
Com a oferta do tal produto composto, que só se consegue com a ligação dos vários agentes que, por sua vez, só se consegue com intermediação humana. É tão necessário encontrar pessoas interessadas em fazer determinadas atividades como pessoas interessadas em proporcioná-las. Tem que se encontrar mais “D. Isildas”, convencê-las a fazer parte de um produto e publicitá-las.

"O turista quer o trabalho todo feito.
Porque é que aqueles artigos 'Os 10 melhores sítios….' têm tanto sucesso?
Porque são pensados na lógica do turista e não na lógica da oferta". 

Mas existem várias plataformas agregadoras com oferta temática. Não é suficiente?
Não basta fazer uma plataforma agregadora, é preciso organizar e estruturar a oferta, para que as pessoas venham passar uma semana de férias com confiança. A agregação, de preferência temática, permite ganhar escala e dar visibilidade. É o primeiro nível. Depois, num segundo, há que dar respostas ou sugestões, roteiros e planos, sem implicar ainda a ferramenta de concretização – reservar -, ainda que aponte os caminhos para o fazer. Num terceiro nível, aí sim, inclui o botão de reserva de experiências e entramos numa complexidade que exige intermediação humana. Ainda existem muitos obstáculos à automatização. Muitas pessoas não têm sistema de reservas, nem são infoincluídas o suficiente, não têm ainda as competências necessárias para dominar as novas tecnologias.
O turista quer o trabalho todo feito. Porque é que aqueles artigos “Os 10 melhores sítios….” têm tanto sucesso? Porque são pensados na lógica do turista e não na lógica da oferta. Já ninguém quer saber de listagens. Agora, a importância está nos conteúdos editoriais e na forma como as coisas são apresentadas e trabalhadas. Até os sistemas de reserva tem que ser trabalhados, porque as pessoas estão tão habituadas aos “bookings” que estranham tudo o que for diferente. É preciso trabalhar a questão da usabilidade.

 

Incêndios: é preciso agir.

O verão está à porta e com ele a ameaça dos incêndios. Qual a sua apreciação do que foi feito desde 2017 para mitigar este risco?
Foi feito pouco. Tentaram e houve muitas tentativas, mas pouco focadas na perspetiva do turista. Começaram pelas grandes áreas florestais, despejou-se muito dinheiro nos problemas, na limpeza das bermas, mas o real problema do ponto de vista turístico é a garantia da segurança e a viabilidade de alguns locais onde estão os investimentos turísticos. Os turistas, que não conhecem o território, têm que saber o que fazer caso sejam surpreendidos por um incêndio. É preciso definir planos de evacuação e de comunicação. Se calhar nem todas as aldeias poderão ter turistas no pico da época dos incêndios. É neste campo que estou um pouco preocupado, porque não houve uma abordagem a este nível.

Não houve uma abordagem a pensar no turista.
Sim, não se questionou o que precisa o turista se for surpreendido por um incêndio. Nos trilhos, fez-se um panfleto, mas não se discutiu o que é que eles precisam. Se precisam de uma app para dizerem onde estão. Se se deverá impedir o turismo num determinado trilho quando o risco de incêndio é muito elevado. Por exemplo, podia-se criar uma solução que notificasse os alojamentos onde estão os turistas sobre o risco de fazer caminhadas naquele dia. Eu aqui fico um pouco atrapalhado no verão, quando as pessoas vão para a floresta caminhar.

Mais uma vez, vamos dar à necessidade de uma gestão mais ativa.
Sim, que deve gerir também os fluxos de turistas, tanto para evitar enchentes como para os encaminhar para locais mais seguros. Mas, mesmo fora dos trilhos, nos caminhos entre as aldeias, onde há mais circulação, os caminhos deviam ter um tratamento prioritário em termos da gestão do risco de incêndio e não se vê essa preocupação.

O Plano de Reabilitação do Pinhal Interior foi apresentado esta semana. Qual é a sua apreciação?
Parece-me um reset – recomeço - em termos de organização da política do território e dos canais de financiamento. Há uma nova perspetiva, o que é bom, porque eu acho que a anterior já não estava a funcionar, mas a sua concretização vai depender muito da interligação e capacidade de trabalho conjunto por parte das pessoas e entidades que estão envolvidas. Temos uma realidade nova que implica um entendimento entre as CIM (Comunidades Intermunicipais), as organizações de gestão de marca e os municípios. Talvez seja bom, porque vai obrigar as pessoas a trabalharem em conjunto e a criarem as tais ligações que tão necessárias são ao desenvolvimento do turismo no interior.

Ainda assim, com tanto por fazer, como tem sido a evolução da imagem que os estrangeiros levam da nossa oferta de turismo de natureza?
A imagem tem vindo a evoluir nos últimos 15 anos. Nessa altura, os adeptos estrangeiros do turismo de natureza vinham a Portugal um pouco por acaso. Hoje já ouvem falar de Portugal e, regra geral, o que existe vai ao encontro das expectativas que eles trazem. Em termos de serviço, sem dúvida, até vão surpreendidos. Os portugueses são simpáticos, a gastronomia é boa, os preços também, e os hotéis são novos ou quase. Em França, por exemplo, os hotéis estão bastante envelhecidos. Nos mercados mais exigentes, como o norte-americano, o australiano e os do centro da Europa, há um segundo nível de exigência que já não é com a infraestrutura, mas com a organização desta. Dão importância à limpeza e à conservação dos trilhos. Verem um trilho estragado por falta de drenagem ou um caixote do lixo cheio é logo motivo de reparo. Temos que dar o salto para um novo patamar de exigência.