Alfredo Mateus - GreendeerA Veado Verde e o seu fundador Alfredo Mateus estão a revelar um lado mais selvagem da Serra da Lousã. A iNature foi com ele observar os veados ao topo da serra e conhecer a origem desta nova fonte de valor para o turismo da região.

Alfredo Mateus sempre foi um homem do todo-o-terreno. Faz e organiza passeios na Serra da Lousã há mais de vinte anos mas, em 2018, entendeu que estava na altura de mudar de vida e formalizar essa mudança. Vendeu os negócios que tinha e fundou a Veado Verde (Greendeer), uma operadora turística dedicada aos passeios de observação de veados e corsos. “Deixei de fazer o que fazia para fazer o que gosto”, justifica. Quase três anos e uma pandemia depois, a ideia trabalhada e incubada num programa de empreendedorismo promovido pela Tourism Creative Factory (TCF) na Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra, é uma marca do turismo de natureza da região.

O programa de reintrodução de veados e corsos na Serra da Lousã, concretizado entre 1995 e 2004 pelos Serviços Florestais de Coimbra, nunca foi consensual entre os locais. Os veados adoram os primores das hortas. Mas, para Alfredo, "os veados são uma mais-valia para a região, porque atraem muita gente”, defende. “As pessoas gostam e saem daqui com alma cheia”, exclama. A procura faz-se sentir todo o ano, mas na época da brama – reprodução -, entre setembro e novembro, é mais intensa. “É quando os veados fazem os bramidos e lutam entre si [os machos]. É uma altura muito bonita porque coincide com o outono e com as tonalidades características da época”, adianta. Mas, os veados estão lá sempre. Dos 120 inicialmente introduzidos estima-se que existam no presente cerca de três mil, o que permite a Alfredo garantir o avistamento dos animais em qualquer altura do ano. Nós tivemos esse gosto.

"Os veados são uma mais-valia para a região, porque
atraem muita gente”.

Apesar do conhecimento e experiência serrana, o setor do turismo não era a praia de Alfredo Mateus quando decidiu formalizar o projeto. Tinha o jipe e o dinheiro para arrancar, mas a empresa de informática e o centro de explicações que geria com a esposa não davam currículo para a atividade que se propunha iniciar. O caminho teria que passar pela aquisição de novos conhecimentos na área e o programa de incubação Tourism Creative Factory (TFC), na Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra, assentou que nem uma luva. “Ajudou-me a estruturar a ‘coisa’ e a criar uma rede de contactos, que neste setor é muito importante”, explica, adiantando que lhe proporcionou os conhecimentos para estudar e avaliar melhor as oportunidades do mercado e permitiu-lhe a presença em algumas feiras de turismo, algo fundamental para quem está a iniciar um negócio e quer dar-se a conhecer.

Espírito empreendedor

“As coisas começaram devagar, mas sempre a crescer”, conta. Além dos passeios de observação dos cervídeos, o empreendedor criou novos produtos. Alargou os passeios às aldeias do Xisto, criou eventos, inventou estórias e novas rotas. Entre estes estão os passeios noturnos, em noites de lua cheia no verão, e os passeios com piquenique incluído. Uma destas inovações é um passeio que se baseia na presença romana na região. “Conimbriga é um sítio muito visitado, mas falta ali investimento. As pessoas vão lá, veem as ruínas e pronto”, lamenta. Com base nesta lacuna, Alfredo Mateus decidiu criar um passeio que passa por Alcabideque, onde começa o aqueduto que abastecia a vila romana, aproveita para mostrar as “cascatas romanas” - como lhe chama e até criou uma estória à volta delas. Estas cascatas são um fenómeno natural criado por um rio subterrâneo que surge à superfície em determinadas épocas do ano, uma característica dos solos cársicos da região, que dão também origem às “Buracas do Casmilo”.

“Os portugueses descobriram um Portugal que desconheciam e,
aqui, na natureza, sentem-se mais seguras”

Suportado pelo conhecimento e gosto pelos contextos natural e histórico da serra, e sempre com o espírito inovador característico dos empreendedores natos, a Veado Verde foi cimentando a sua marca e presença no turismo da região. “No final de 2019, que foi um ano bom, pensámos que 2020 seria o ano do ‘boom’, e depois aconteceu isto [a pandemia]”, lamenta. Porém, apesar da crise causada pelo contexto sanitário que ditou o encerramento da Veado Verde durante os períodos de confinamento, Alfredo Mateus tem razões para encarar o futuro com otimismo.

À semelhança do sucedido um pouco por todo o país, a ausência do turista internacional foi preenchida pela maior presença de turistas nacionais, que viram no interior uma alternativa face a geografias mais massificadas. “As pessoas estão com muita vontade de sair”, defende. Na Veado Verde, esta vontade e presença dos portugueses originou o melhor outubro de sempre em 2020 e os primeiros sinais de retoma são animadores, o que leva o guia a pensar que esta alteração de públicos é uma tendência que veio para ficar. “Os portugueses descobriram um Portugal que desconheciam e aqui, na natureza, sentem-se mais seguras”, diz, sublinhando que nem os turistas estrangeiros, nem o “à vontade da pré-pandemia” irão regressar tão depressa.

A união faz a força

Alfredo MateusO início da retoma dá sinais positivos. Dentro do contexto, abril foi um mês “animado” para a Veado Verde e o trabalho realizado pelos agentes do turismo da região nos últimos anos criou valor para o produto turístico local. “No turismo não se pode trabalhar sozinho”, diz, vincando um dos primeiros ensinamentos do programa de empreendedorismo que frequentou na TCF. “Temos que trabalhar em parceria. Criam-se muitas sinergias com o trabalho conjunto”, defende, apontado alguns dos seus inúmeros parceiros. O chef João d’Eça Lima – restaurante “Xisto” – e Pedro Pedrosa – alojamento Casas do Vale do Ninho -, protagonistas visados nesta edição da newsletter iNature, são dois deles. A ideia é sempre a mesma: captar e encaminhar clientes uns para os outros e assim contribuir para um produto mais completo e enriquecedor. Por exemplo, as cestas dos piqueniques proporcionados em alguns passeios são recheadas pelo “Cordel Maneirista”, um restaurante típico ali próximo do “Portugal dos pequenitos”. “Tem entradas, primeiro, segundo prato, sobremesas, tudo. Um recheio que faz as delícias das pessoas”, regozija-se.

“Temos que trabalhar em parceria. Criam-se muitas sinergias com o trabalho conjunto”.

Com as entidades locais, entre os quais se incluem os municípios, Alfredo Mateus também não tem muito a apontar. Coimbra, cidade onde a Veado Verde está sedeada, é a base do turismo da região, devido ao seu património histórico e arquitetónico e às boas acessibilidades às duas grandes cidades do país. Ali, a aposta da Veado Verde é a presença nos hotéis, através de panfletos. Porém, segundo o empresário, “continua a ser uma cidade complicada [para quem vive do turismo na serra]”. Já os municípios mais próximos da serra, como a Lousã, Góis e Penela, têm, na sua opinião, desenvolvido um trabalho de valor. “Penela, por exemplo, está a desenvolver um portal de experiências e as coisas estão a andar bem”, exemplifica.

Por estes motivos e pela consciência do valor do património natural e histórico da Serra da Lousã, Alfredo Mateus tem boas razões para estar positivo em relação ao futuro próximo, tanto que até investiu num novo jipe. “Agora já podemos fazer passeios com até dez pessoas”, diz, de sorriso estampado na face. 

Veado adulto macho. A época mais agitada e rica para observar veados na Serra da Lousã é entre setembro e Novembro, a época da "brama" - reprodução. Foto: Veado Verde.

Veado adulto macho. A época mais agitada e rica para observar veados na Serra da Lousã é entre setembro e Novembro, a época da "brama" - reprodução. Foto: Veado Verde.

Depois da "brama", os veados perdem as hastes, que só voltarão a crescer para as lutas da próxima época de reprodução. Foto: Veado Verde.

Depois da "brama", os veados perdem as hastes, que só voltarão a crescer para as lutas da próxima época de reprodução. Foto: Veado Verde.

As florestas da Serra da Lousã são ricas em pequenos mamíferos. O esquilo é um deles. Foto: Veado Verde.

As florestas da Serra da Lousã são ricas em pequenos mamíferos. O esquilo é um deles. Foto: Veado Verde.

A raposa é outro animal que costuma aparecer nos passeios pelas florestas da Serra da Lousã. Foto: Veado Verde.

A raposa é outro animal que costuma aparecer nos passeios pelas florestas da Serra da Lousã. Foto: Veado Verde.