Após quase duas décadas na receção de um hotel, Cidália Nascimento (na foto) aceitou o desafio para gerir o projeto do empresário Luís Paixão Martins na Herdade do Clube de Tiro de Monfortinho. Numa região onde o turismo já viveu tempos áureos ancorado às termas locais e à atividade cinegética, o tempo mudou as vontades e a sazonalidade é hoje o grande desafio dos agentes turísticos locais. Para a vencer, a herdade tem em prática um modelo inovador de desenvolvimento que mistura turismo ecológico e rural com exploração florestal e os resultados são positivos. Mas, para a experiente gestora, além da necessidade de mais promoção, a região precisa de adaptar os seus ativos turísticos às vontades dos novos tempos.

Meados de agosto. Às dez horas da manhã, a Herdade do Clube de Tiro de Monfortinho já ferve de calor e de movimento. Na receção, alguns hóspedes tratam dos últimos tramites do checkout, já com saudade. No restaurante, ali ao lado, inicia-se a azáfama da preparação dos almoços e, no parque de estacionamento das piscinas, os lugares disponíveis começam a ficar preenchidos. No epicentro desta dinâmica está Cidália Nascimento. “É sempre assim?”, perguntamos. “Entre junho e setembro, sim”, diz a responsável pela gestão da herdade. Na época alta, a taxa de ocupação dos quatro alojamentos ronda sempre os 100% e a pandemia não veio mudar essa realidade. “Não houve grandes alterações, porque quem nos procurava antes já vinha em busca de isolamento e sossego”, explica, sublinhando que até as piscinas, abertas ao público em geral, têm um espaço reservado para os hóspedes. “Depois pára tudo”, conclui, demonstrando alguma nostalgia pelos tempos em que a região tinha turistas ao longo de todo o ano.

Dos 42 anos de idade, Cidália soma metade a trabalhar na região. Assim que acabou a licenciatura conseguiu emprego na receção num dos hotéis que serviam as Termas de Monfortinho e por ali ficou até 2019 quando se mudou para a Herdade do Clube de Tiro de Monfortinho para liderar o projeto idealizado por Luís Paixão Martins, que adquiriu a propriedade outrora pertença da família Espírito Santo, em 2016. Até dois anos antes, aquando do colapso do Grupo Espírito Santo, os Espírito Santo eram indissociáveis da região. Afinal, durante décadas foram “os donos daquilo tudo”. Além da Herdade do Clube de Tiro, a família era proprietária do Balneário Termal, dos dois grandes hotéis das Termas, o Astória, com 84 quartos – encerrado desde 2014 – e o Fonte Santa, com 42 quartos, e também das herdades vizinhas Vale Feitoso e Poupa. 

“Cidália é a anfitriã da herdade. Todos os pedidos de reserva passam por ela e todos têm resposta de viva voz. Na época baixa, quando há menos clientes, a gestora junta-se aos colegas nos trabalhos afetos à gestão florestal”.

Da secretária para o campo

Em declarações ao Jornal do Fundão logo após a aquisição, Luís Paixão Martins foi claro no destino que pretendia dar à propriedade. O empreendedor propunha-se investir 1,1 milhões de euros no desenvolvimento de um projeto que misturasse com harmonia a exploração florestal e o turismo ecológico e rural. E, ao longo da visita feita à herdade, é possível ver já alguns dos resultados da estratégia definida. A propriedade foi dividida em duas zonas, uma turística e outra florestal. Na primeira, foram construídas quatro casas em xisto com arquitetura da autoria do atelier ARC - Atelier Ramos & Clark, cada uma capaz de alojar até quatro pessoas. As duas piscinas já existentes foram recuperadas e a albufeira, contígua ao espaço das piscinas, permite agora a prática da pesca desportiva, passeios de gaivota, caiaque e paddle. Nesta parte, com uma área aproximada de 200 hectares, está ainda o campo de tiro, o restaurante, instalado no magnífico pavilhão de caça mandado erigir por Júlio Anahory de Quental Calheiros, 3º Conde da Covilhã, na década de 1950, e existem quilómetros de percursos pedestres e cicláveis. Na segunda, com uma área aproximada de 300 hectares, faz-se exploração florestal.

Para a gestora natural do Fundão, foi uma mudança radical. “No anterior emprego passava oito horas sentada à secretária, aqui, além da elevada responsabilidade, nunca sabemos o que vai acontecer amanhã. Estão sempre a surgir situações que temos que resolver. Todos os dias são muito ativos”, explica. Comunicadora por natureza, confessa que a época alta é a sua preferida. Todas as reservas de alojamento passam por si e todas têm resposta de viva voz. Antes de receber os clientes procura saber quais são as suas necessidades e preferências. “As pessoas quando chegam à herdade já me conhecem”, diz, com a simpatia natural de quem vibra com o que faz.

Além das reservas, Cidália providencia os pequenos-almoços aos hóspedes, é a sua anfitriã durante a estadia e coordena o trabalho dos outros dois empregados da herdade – três durante a época alta. Todos têm algumas funções específicas. Na época alta, Carlos Fernandes dedica-se à manutenção das piscinas e dos espaços verdes da área turística e, na época baixa, à limpeza da floresta, plantações, colheitas e todo o tipo de manutenções (caminhos, vedações, etc). Já Conceição Poças, a mais antiga funcionária da herdade, é responsável pelo bar das piscinas e pela cobrança dos bilhetes ao público em geral no verão e, no inverno, junta-se aos colegas na parte florestal. “Vendemos muita lenha, temos olivais dos quais produzimos azeite e temos feito várias plantações“, diz Cidália, ao mesmo tempo que nos conduz pelos caminhos da herdade nas imediações da zona turística. “Também usamos a zona florestal para proporcionar alguns passeios de todo-o-terreno para observação de aves e animais. É frequente verem-se perdizes, javalis e veados”, conta.

A atividade cinegética e a prática de tiro desportivo não têm a força do passado, mas se há vontade que o tempo não levou foi o apetite. O restaurante da herdade, com o célebre "bacalhau na telha" está sempre cheio ao fim-de-semana. Sobretudo de espanhóis. 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Noutros tempos, a sazonalidade do turismo não se sentia como no presente. “No Inverno a caça e as montarias eram uma grande atração. Vinham famílias inteiras e depois em março abria o balneário e vinham os termalistas. Os hotéis estavam sempre cheios”, recorda. No entanto, nem uma nem outra atividade têm atualmente a força de outros tempos. O campo de tiro, um dos mais bem apetrechados do país, e onde se chegaram a realizar campeonatos mundiais de tiro desportivo, quase não tem utilizadores. “No último ano só tivemos dois clientes, um casal de hóspedes que eram ambos praticantes”, diz Cidália.

Face à escassez de clientes, a administração da herdade tentou em agosto uma parceria com a Espingardaria Nuno Martins, em Castelo Branco, para tentar dinamizar o espaço, que chegou a ter um percurso de caça, várias modalidades de tiro e até “largadas de pombos”. “O Nuno é um jovem dinâmico. Ele já conseguiu trazer cá algumas pessoas. Vamos ver. Em setembro iremos avaliar a parceria”, diz a responsável. Este modelo de concessão está em prática também na reserva cinegética e no restaurante, e ambas funcionam bem. “Temos aqui muita caça e os javalis são uma praga”, diz Cidália. O problema é que os caçadores de hoje não pernoitam, ao contrário do que acontecia antigamente.

A única vontade que por aqui não cede ao tempo é a do prazer de comer. “A Gabriela Nogueira, a responsável pelo espaço, e a Laura Lopes, a cozinheira, têm feito um trabalho notável”, afirma a gestora da herdade. Sempre procurado ao longo do ano, sobretudo pelos espanhóis, muito apreciadores do “’bacalao’ na telha”, o prato ex-líbris do estabelecimento, Cidália arrisca mesmo afirmar que o restaurante é neste momento o principal polo de atração da região. “Muitas vezes, é através da visita ao restaurante que as pessoas ficam a saber que há aqui alojamento, piscinas e termas”, desabafa.

“As pessoas continuam a pensar que as Termas são para pessoas doentes. É preciso mudar esta perceção de forma a associá-las aos conceitos de Spa e bem-estar e atrair novos públicos", defende a gestora".

Reinventar o conceito das Termas

Monfortinho pode não ser uma região fácil para o setor do turismo devido à distância dos grandes centros populacionais. O mercado espanhol é uma alternativa. Espanha está ali a pouco mais de uma dezena de quilómetros e a cidade de Cáceres a pouco mais de uma centena. O marketing da Herdade do Clube de Tiro e Monfortinho já se orienta bastante para Este. Além do site, publicado num misto de português e espanhol, a herdade publicou recentemente um guia bilingue da região intitulado “A fronteira de Monfortinho – Viagens por Beira Baixa e Extremadura”. E antes da pandemia chegar, era frequente a presença da herdade em feiras de turismo no país vizinho. Porém, o peso dos visitantes espanhóis nos alojamentos representa pouco mais de 20% (ao contrário do que acontece no restaurante onde pesam cerca de 80%). Para quem viu e viveu tempos áureos na região, como Cidália, a sazonalidade que hoje se sente na região não tem que ser uma fatalidade. O modelo de gestão adotado pela Herdade do Clube de Tiro de Monfortinho, em que a atividade turística vive em harmonia com a exploração florestal, é uma solução capaz de criar postos de trabalho estáveis e valor económico sustentável, mas a ideia que fica de conversas com a gestora e alguns habitantes locais é que a região de Monfortinho sem umas termas fortes é como um Centro Comercial sem hipermercado.

“É preciso promover a região e os seus pontos de interesse turísticos, uma tarefa que cabe não só aos promotores como ao município e ao Turismo do Centro.

O Balneário Termal foi adquirido também em 2016 por um consórcio de investidores liderados por António Trigueiros de Aragão, empresário e administrador da fábrica de farinhas Lusitana, em Alcains, e passou a estar aberto o ano todo, quando antes tinha uma atividade sazonal. No entanto, Cidália acredita que, além de disponibilizar o serviço, é preciso trabalhá-lo ao nível da comunicação e marketing. “As pessoas continuam a pensar que as termas são para pessoas doentes. É preciso mudar esta perceção de forma a associá-las aos conceitos de Spa e bem-estar e atrair novos públicos”, defende. Ou seja, o antídoto para a forte sazonalidade sentida na região pode estar num ativo endógeno que no passado foi a âncora do turismo da região. “Depois é preciso promover a região e os seus pontos de interesse turísticos, uma tarefa que cabe não só aos promotores como ao município e ao Turismo do Centro”, diz. De facto, entre o sossego e a tranquilidade de um alojamento no meio da natureza, aldeias pitorescas como Penha Garcia, históricas, como Monsanto, uma gastronomia rica e múltiplas atividades de bem-estar baseadas na natureza, o que não falta são motivos para visitar a Herdade do Clube de Tiro de Monfortinho e a região de Monfortinho.

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Herdade do Clube de Tiro de Monfortinho