A aldeia de Roqueiro, no concelho de Oleiros, não é uma das famosas aldeias do xisto, nem tem história que lhe conceda tal título, mas tem um restaurante onde semanalmente rumam centenas de pessoas de todo o país para saborear a iguaria que colocou a região no mapa da gastronomia nacional, o Cabrito Estonado. Eis um aperitivo da estória da Adega dos Apalaches, um restaurante idealizado por dois filhos da região, e um exemplo de como a recuperação de uma tradição gastronómica e uma estratégia concertada entre agentes públicos e privados é uma receita possível para criar turismo até onde ele não existia.

“Vender o interior a pessoas citadinas, não é fácil”, diz Conceição Rocha (na foto), suportando-se da experiência acumulada desde 2011, ano em que voltou à região que a viu nascer, após décadas de residência em Oeiras. “Sempre tive a ideia de regressar”, confessa a enfermeira reformada, agora a liderar o restaurante Adega dos Apalaches em Roqueiro, uma aldeia do concelho de Oleiros. Todas as semanas, centenas de pessoas rumam ali para saborear o cabrito confecionado de acordo a técnica que o jesuíta António de Andrade trouxe do Tibete no século XVII, e que se transformou num dos ex-libris da gastronomia da região e do país. A agora gestora recorda com regozijo o momento que, segundo ela, marcou o restaurante e o cabrito estonado. “Um dia pediram-me um cartão de contacto para dar a um senhor que queria vir a Oleiros fazer umas filmagens sobre o cabrito estonado e eu dei os meus contactos”, conta. O senhor era Paulo Salvador, o apresentador no programa gastronómico da TVI, o “Mesa Nacional”. “Ele ligou, preparáramo-nos para o receber e fizemos as filmagens. Quando o programa foi para o ar, olhe, foi um sucesso de tal ordem…Eu nem queria acreditar”, diz. A partir daquele mês de agosto de 2017, a Adega dos Apalaches e o “cabrito à moda de Oleiros” tornaram-se nas referências do turismo gastronómico da região de Oleiros. Porém, para chegar àquele telefonema, foi preciso percorrer um longo caminho.

A construção de uma marca

A imagem de marca da Adega dos Apalaches e do Cabrito Estonado que agora se vê é o resultado do trabalho iniciado há uma década, quando Fernando Carvalho decide concorrer à concessão do Hotel Santa Margarida, em Oleiros. A ideia era simples. Fernando, diretor de um hotel na capital, tinha a experiência e a irmã, Conceição, a vontade de regressar e a necessidade de abraçar um novo desafio. “Ele daria a cara pelo hotel e eu seria a gestora, tendo o apoio dele ao fim-de-semana, quando ele vinha”, explica Conceição. Naquela época, a região de Oleiros tinha uma presença escassa no contexto do turismo no centro do país, “tinham-se feito algumas experiências, mas nada de significativo”, conta Conceição, pelo que a primeira tarefa da gestora foi encontrar algo diferenciador capaz de convencer e atrair pessoas.

A estratégia concertada entre os concessionários do Hotel Santa Maria e o Município de Oleiros foi fundamental para a criação da marca Cabrito Estonado.


Num concelho outrora inserido numa região denominada Pinhal Interior Sul, a natureza seria uma aposta natural. “O problema é que a natureza desaparece em 48 horas”, diz a empreendedora, apontando para as encostas visíveis do restaurante fustigadas pelos incêndios no ano passado. Em alternativa, viraram-se para a gastronomia. Embora tivesse perdido a relevância de outros tempos, a forma de confecionar o cabrito trazida pelo missionário oleirense não estava esquecida. Havia pelo menos um restaurante na cidade que confecionava cabrito estonado por encomenda e existia alguma aceitação, mas era preciso trabalhar o produto de forma a valorizá-lo e dá-lo a conhecer. Para isso, surgiu um parceiro fundamental em todo o processo da conceção da marca.

Em 2013, as eleições autárquicas resultam num novo executivo que atribui mais valor ao turismo. Para Conceição, esta mudança foi fulcral para a afirmação do cabrito estonado como uma marca da região. “Eles [município] passaram a trabalhar connosco, ouviram-nos, fizeram várias inovações e investiram”, diz Conceição. No hotel, por exemplo, o município patrocinou a construção de um forno a lenha, uma ferramenta indispensável para a confeção do cabrito estonado, organizou eventos gastronómicos e fomentou a Confraria Gastronómica do Cabrito Estonado que seria fundada em 2015 com um conjunto de confrades fundadores notáveis, eles próprios instrumentos de marketing. O ator Ruy de Carvalho é um deles.

Caminhos exigentes

Apesar do esforço de investimento concertado, fundamental para a criação e valorização, o contato permanente de Conceição com os clientes do Callum, o restaurante do Hotel Santa Margarida, dizia-lhe que faltava algo na experiência oferecida. “Os clientes que vinham ao hotel comer o cabrito queriam contacto com a natureza e com as gentes da terra”, diz. “Teria que se proporcionar uma experiência mais informal e ligada à rusticidade”, sublinha. Desta perceção, surge a ideia de criar um espaço capaz de responder àquelas questões e o então curral na aldeia de Roqueiro, propriedade dos sogros de Fernando Carvalho, era a solução ideal. “Tivemos que os conquistar [os sogros], o que não foi fácil, porque havia muitas ligações emocionais ao imóvel, mas lá conseguimos”, conta Conceição.

De início, o objetivo não era trazer o cabrito estonado do hotel para Roqueiro, mas fazer daquele espaço uma extensão do hotel, onde os clientes deste iriam à noite beber um copo, conversar e, porventura, petiscar. “Queríamos dar outras experiências aos clientes”, explica Conceição. No “cardápio” havia peixinhos da horta, moelas e outros petiscos associados à rusticidade do local e da região. A Adega seria inaugurada em 2017.

A adaptação de Conceição Rocha à vida na aldeia não foi fácil. A integração na comunidade local é
um dos grandes desafios para quem se muda para o interior do país.

Um dos temas já abordado na newsletter iNature é a adaptação nem sempre fácil de quem se muda da cidade para uma aldeia no interior do país. Conceição sentiu essas dificuldades na pele. Na primeira fase, ainda no hotel, a adaptação até foi fácil. “Nos primeiros dois anos vivi no hotel, tinha uma vida muito dinâmica, sempre em contacto com pessoas em contexto de férias. Era como viver na cidade e era bom”, confessa. Porém, quando se mudou para casa própria, numa aldeia da União de Freguesias de Estreito – Vilar Barroco passou por um período “trabalhoso”.

Os 20 quilómetros até Oleiros, feitos duas vezes por dia, eram a primeira das dificuldades, mas a integração na comunidade da aldeia foi o maior desafio. “Tive as dificuldades naturais de ser uma mulher sozinha e ter uma vida diferente do quotidiano da aldeia: eu saía de manhã e chegava à noite, nem tinha tempo para socializar com as pessoas”, explica. A ideia preconcebida de que os locais recebem os novos residentes de braços abertos é uma “ilusão”, defende. “Até em Oleiros, quando ficamos com a exploração do hotel, sentimos o fardo de ser de fora”, adianta. Honestidade, determinação e estar bem com todos são, na opinião da empreendedora, as diretrizes para a integração na comunidade. “Mas é preciso tempo e algum trabalho”, sublinha. Hoje, Conceição congratula-se com a relação que tem com os seus vizinhos e conterrâneos.

Em Roqueiro, com a Adega dos Apalaches, não foi diferente. “Inicialmente, não foi bem aceite e tivemos que trabalhar isso. Convidámos as pessoas a virem cá e o facto do meu irmão ser casado aqui na terra facilitou”, conta Conceição. O tempo encarregou-se do resto.

Foco na sustentabilidade

Em setembro do ano passado, Conceição Rocha pôde finalmente dedicar-se exclusivamente à Adega dos Apalaches. A dois anos do fim da concessão do Hotel Santa Margarida, André Ribeiro, o chef do restaurante do hotel, o Callum, irá assumir a responsabilidade do hotel. Também ele passou o testemunho da cozinha da Adega dos Apalaches. Após alguns anos de formação com o chef, Fernanda (na foto) é agora a guardiã dos segredos e da confeção do cabrito, e os irmãos poderão dedicar-se ao futuro da Adega dos Apalaches. Planos não lhes faltam.

Em 2017, quando o cabrito estonado se instalou no menu da Adega dos Apalaches, o restaurante tornou-se o epicentro do “prato” e viu-se obrigado a crescer. Foi contruído mais um forno, ampliou-se a cozinha e adquiriram-se alguns edifícios contínuos ao curral inicial para ter um espaço capaz de responder à procura. O mais recente investimento é uma loja de artesanato e produtos locais. No entanto, o cunho da sustentabilidade que Conceição sempre pretendeu dar ao projeto nunca se perdeu.

Toda a gestão do restaurante é efetuada tendo em conta
uma lógica de sustentabilidade e valorização dos recursos endógenos.
 

Parte dos produtos consumidos no restaurante são cultivados numa horta junto ao casario das instalações do restaurante, uma aposta pessoal “inicialmente para controlar o modo de produção”, diz Conceição, mas agora a ideia é aumentar a produção própria, aproveitar, reconverter e transformar toda a produção e, no futuro, quem sabe, criar uma marca própria.  

Os 30 a 35 cabritos consumidos semanalmente são também oriundos de produtores da região e os sete empregados efetivos residem no concelho. Durante a conversa com a iNature, Conceição passou parte do tempo a tentar encontrar uma pessoa para a semana seguinte. “É difícil encontrar pessoas para trabalhar”, exclama. “Falta gente com formação. Mas falta sobretudo gente”, lamenta, referindo-se ao despovoamento que afeta a região e o interior do país, no geral, uma tendência que acredita ser “incontornável”, diz.

Todavia, a beirã, agora já enraizada, está otimista. “A pandemia vai passar” defende, embora tenha algum receio do surgimento de uma crise económica após esta fase. Mas, se tal não acontecer, a gestora acredita que a região tem valências para atrair mais turismo. “Foram criadas estruturas na região que não envergonham o concelho perante qualquer outro local do país e existem hoje motivos para que o turista venha ao interior”, defende. Verdade, o Cabrito Estonado, a Adega dos Apalaches e a sua anfitriã são três que, por si só, justificam uma viagem ao concelho de Oleiros e à aldeia de Roqueiro.

@iNature

Adega dos apalaches