Construir consensos

“O difícil é juntar as pessoas, porque quando as pessoas se juntam, as coisas acontecem”. A frase é de Eduardo Amaral, responsável da ADSAICA – Associação de Desenvolvimento das Serras de Aire e Candeeiros. Numa conversa desafogada na Câmara Municipal de Porto de Mós, o também vice-presidente do município (à data) falou da importância estratégica da associação na valorização do território, das iniciativas em curso e dos desafios e oportunidades que esperam a região no âmbito da candidatura da Associação Geoparque Oeste para a integração deste na Rede Mundial de Geoparques da UNESCO. E, no final, traçou um roteiro para três dias bem passados na região.

A ADSAICA esteve para ser extinta em 2014, mas acabou por continuar com um novo fôlego. Valeu a insistência?
Sim, claro que valeu. Seria perder um agente do território para agregar os municípios – que fazem parte da ADSAICA -, e um agente dinamizador e aglutinador capaz de definir uma estratégia partilhada entre todos e de a concretizar através do recurso a alguns apoios criados para o efeito. O facto de estarmos numa área protegida não pode ser visto como um obstáculo, mas como uma oportunidade e conseguimos que os nossos parceiros olhassem para a ADSAICA dessa forma, uma oportunidade que estava nas nossas mãos e para a qual todos podiam contribuir e valorizar com o seu conhecimento.

E já conseguiu que a ADSAICA fosse encarada dessa forma?
Há várias formas de olhar para dentro. Ainda não há uma visão comum porque a ADSAICA ainda não tem uma direção como nós entendemos que deve ter. A ADSAICA não pode ter uma direção e uma gestão de boas vontades, ter que ter uma gestão proactiva e direta no terreno com o apoio dos parceiros, mas tem que haver uma estratégia mais profunda do que a que existe atualmente.

"A ADSAICA não pode ter uma direção e uma gestão de boas vontades, ter que ter uma gestão proactiva e direta no terreno com o apoio dos parceiros, mas tem que haver uma estratégia mais profunda do que a que existe atualmente."

Que marcos conseguiram alcançar desde então?
Conseguimos que os municípios sentissem que existe oportunidade. Entrámos num fundo para recuperar o espaço de visitação do Monumento Natural das Pegadas dos Dinossáurios da Serra de Aire, alterámos a nossa sede para um espaço com mais e melhores condições. Conseguimos que o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) olhasse para a associação não só como um prestador de serviços, mas como uma entidade que pretende ter um papel preponderante na gestão do Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros (PNSAC), pois é representativa de todos os municípios que integram a área do parque e pelos quais deve ser partilhada essa mesma gestão. Através da ligação entre os municípios verificámos que há projetos que têm que ser interligados e criámos uma base de diálogo para que aconteçam mais coisas no futuro. O difícil é juntar as pessoas, porque quando as pessoas se juntam, as coisas acontecem.

Há planos para dinamizar e revitalizar o espaço do Monumento Natural das Pegadas dos Dinossáurios?
O monumento é visto como um mecanismo de transmissão de conhecimento científico e nós entendemos que temos que acrescentar-lhe uma componente lúdica, porque é geradora de mais público e de mais oportunidades, e acaba até por complementar a parte científica. Temos tido esta discussão com o ICNF. Mas, sozinha, a ADSAICA não tem poder financeiro para fazer ali algo significativo.

Há uma diferença de visão para o monumento entre a ADSAICA e o ICNF. É isso?
Sim. Nós gerimos o espaço, mas os conteúdos são geridos pelo ICNF. Por isso é que acaba por haver duas visões diferentes. Ou seja, a dinamização do espaço é da responsabilidade da ADSAICA, mas o “proprietário” do espaço é o ICNF. Nós defendemos que, em termos de visitação, o espaço tem que ter um aspeto lúdico e valências que acrescentem valor às visitas.

Pode dar exemplos?
Podemos entrar na perspetiva das plantas locais, da biodiversidade. Queremos fazer visitas à noite, algo que já foi feito no passado, e criar algum misticismo à volta do espaço que faça com que as pessoas procurem o monumento, até porque para ver as pegadas é preciso ser criativo (risos). Já ao nível da sinalização, pretende-se dotar as placas identificadoras de códigos QR para que as pessoas tenham acesso a mais informação e em várias línguas.

Existe algum calendário para a execução dessas iniciativas?
Este ano serão iniciadas algumas obras e o centro interpretativo. Serão também instaladas mesas interpretativas através das quais as pessoas poderão perceber melhor o que estão a ver.

"Nós não queremos fazer apenas parte de uma região de turismo do centro que vem desde a Serra da Estrela até ao Alentejo, cada município tem a sua vida própria com a sua estratégia e com o seu posicionamento."

Qual é a apreciação que faz do recente Programa Especial do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e do respetivo regulamento de gestão?
São duas coisas diferentes, o plano existe e as câmaras fazem parte do conselho estratégico o que lhes permite contribuir e apresentar sugestões para o desenvolvimento do parque. A gestão ou cogestão do parque é outra situação. O regulamento veio facilitar a resolução de alguns problemas que existiam e que andavam de comissão em comissão, mas ainda não veio resolver todos. Mas, o mais relevante é que nós entendemos que os municípios devem fazer parte da direção da gestão do Parque Natural.

Este regulamento de gestão prevê essa situação?
Ainda não, mas é a própria legislação que o prevê. No primeiro passo para a gestão, a legislação dizia que tinham que aderir todos os municípios, ou seja, tinham todos que ser cogestores, mas agora a legislação já dá a possibilidade aos municípios de dizerem que não querem fazer parte de gestão. Na cogestão, o problema é que tem que existir um presidente de câmara que seja a voz de todos os outros e não é fácil reunir esse consenso.

Este é um território que não é classificado como interior, mas também se pode dizer que não é litoral. Esta localização geográfica é um desafio acrescido para a gestão da ADSAICA?
É uma vantagem. A diversidade faz com que se consiga atrair mais gente ao território e que fiquem mais tempo no território. Nenhum dos municípios pode pensar em fechar-se sobre si próprio e ter as pessoas unicamente no seu espaço. O valor dos meus municípios vizinhos deve ser visto como um fator de valor acrescentado ao meu, mas tem que existir uma parceria entre todos de forma a que eu conheça o que cada um dos territórios que faz parte da ADSAICA tem de melhor, e é esse entendimento que falta criar. Tem que haver uma estratégia e uma visão partilhada, apesar de cada um ter a sua. Nós não queremos fazer apenas parte de uma região de turismo do centro que vem desde a Serra da Estrela até ao Alentejo, cada município tem a sua vida própria com a sua estratégia e com o seu posicionamento.

"...seria importante que os territórios compreendidos pela ADSAICA fossem considerados territórios de baixa densidade para podermos ter acesso a um conjunto de vantagens para, por exemplo, a recuperação do património."

Mas o facto de não serem considerados territórios de baixa densidade é prejudicial?
Sim, seria importante que os territórios compreendidos pela ADSAICA fossem considerados territórios de baixa densidade para podermos ter acesso a um conjunto de vantagens para, por exemplo, a recuperação do património. O caso do incentivo à recuperação dos muros de pedra seca é perentório. Foi uma iniciativa que teve uma visibilidade enorme e chamou muito à atenção, mas os muros de pedra seca precisam de ter lá animais e, com a perda de população, há cada vez menos pessoas e pessoas com animais.

Chegaram a avançar com a candidatura dos muros de pedra seca a património mundial da UNESCO?
Estamos a fazer a candidatura com as Terras de Sicó. Fizemos um livro infantil com uma história sobre os muros e uma música que as crianças cantam na escola e o produto final é a construção de um muro que nos une. Cada um traz uma pedra, venha de cá ou de outro lado qualquer e vem construir um muro connosco. Uma narrativa.

O Geoparque e as pedreiras

Há também a intenção de integrar o Geoparque Oeste na Rede de Geoparques Mundiais da UNESCO, de acordo com a candidatura em curso realizada pela Associação Geoparque Oeste. É possível conciliar um parque desta natureza com a exploração de pedreiras existente na região?
Sim, é possível desde que todos tenham consciência do seu papel no território. O geoparque implica que haja uma tomada de consciência de todos. Muita gente vê o geoparque apenas como um local onde virão multidões tirar fotografias de todas as maneiras, mas o geoparque implica que as próprias câmaras enfrentem algumas situações delicadas, nomeadamente, com as pedreiras, o que as obriga a dar o passo seguinte.

Vai ser uma condicionante à exploração das pedreiras?
No nosso caso (Porto de Mós), não, porque nós já fizemos os planos de exploração, onde estão delimitadas as zonas de exploração para os próximos 40 anos.

Mas podem existir municípios que não tenham ainda feito esse trabalho.
Por isso é que eu digo que não é fácil para todos e que nem todos veem a candidatura e a constituição do geoparque da mesma maneira.

Sou um turista, tenho três dias para passear por aqui com a família. O que me recomenda ver e fazer por aqui?

1º dia – A perspetiva histórica
Começava por visitar o castelo de Porto de Mós para perceber a perspetiva histórica da região. Foi dali que saíram as tropas de Nuno Álvares Pereira. Depois seguia para uma visita ao CIBA – Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota, onde foi o campo da batalha. Ali pode ainda aproveitar para visitar o museu. O almoço podia ser em São Jorge, uns grelhados de carne local.
À tarde recomendava uma visita à Ecopista e um convite a fazer a Rota do Carvão que termina na Central Termoelétrica.

2º dia – Incursão na natureza
No segundo dia aconselhava um dia de turismo de natureza com início numa visita à Fórnea, um anfiteatro natural com uma paisagem magnífica sobre toda a serra de São Bento. Para almoçar recomendava o restaurante Cova da Velha, em Alcaria. Depois, à tarde, aconselhava um percurso de bicicleta para apreciar os muros de pedra seca. Há ali cerca de 700km de percursos marcados para várias condições físicas e existe a possibilidade de se arranjar umas bicicletas elétricas para quem tem menos pedalada (risos).

3º dia – Grutas e dinossauros
Ao terceiro dia podia enveredar por algo mais aventureiro, com uma experiência de parapente ou asa-delta, em Alvados, e depois ir às grutas de Santo António, Alvados ou Mira d’Aire. Em alternativa, experimentar descer um algar. Neste caso é necessário recorrer ao apoio do Núcleo de Espeleologia de Leiria com quem desenvolvemos um algar inclusivo, para que pessoas com limitações possam também usufruir desta experiência. Para não sair daqui sem levar umas lembranças dos dinossauros, recomendava ainda uma visita ao museu de Porto de Mós, onde temos vários ossos de dinossauro petrificados, e uma passagem pela praia jurássica em São Bento. Depois seguia para Ourém para ver as pegadas dos dinossauros, onde terminaria o dia.

@iNature