Pedra a pedra, em Cotas, Soure, uma aldeia outrora abandonada ganha vida pela vontade de três amigos. Respeitando a arquitetura, as técnicas e os materiais de construção locais, Aldeia de Cima deu lugar a Villa Pedra Natural Houses, um aldeamento turístico exclusivo, onde o conforto, o estilo e a natureza se juntam para receber quem chega à procura do dolce fare niente

Enquanto algumas pessoas deixam as aldeias em busca de melhores condições de vida, outras migram das cidades para as aldeias em busca de melhor qualidade de vida. Soa a paradoxo, mas é o que está a acontecer em algumas localidades do país. O lugar conhecido como Aldeia de Cima, é uma delas. Abandonada há oito décadas é hoje um exemplo da migração contra a corrente da desertificação humana do interior do país e do papel que o turismo pode ter no combate deste problema. 

A primeira pedra do agora Villa Pedra Natural Houses é lançada em 2003 como um projeto pessoal. Manuel Casal, empresário do setor do luxo (cofundador da cadeia de lojas Stivali), queria abrandar e estar mais próximo da família, em particular, da irmã, cuja profissão a tinha levado a mudar-se para Coimbra. Porém, cinco anos depois, de uma potencial casa de fim de semana, começava a reconstruir-se uma aldeia.

No centro desta transformação está Vítor Mineiro. Arquiteto de profissão e amigo de longa data de Manuel Casal, foi uma peça fundamental na construção do que hoje se vê e sente naquele espaço outrora arruinado. “Ele encontrou este lugar e desafiou-me para recuperar uma das ruínas”, conta Vítor, confessando que no início ficou reticente. Mais virado para a arquitetura de interiores, não se sentia à vontade na reabilitação em espaço rural, mas acabou por aceitar. “Aconselhei-o a comprar as ruínas contíguas à ‘casa’ que ele queria. Estamos em terra de emigrantes e havia o risco de um dia chegar aqui um vizinho e erguer uma ‘maison’ ao lado da casa dele”, explica. 

Nestes casos, é frequente os imóveis pertencerem a mais do que um proprietário e muitas vezes na condição de herdeiros, o que prolongou processo de aquisição das primeiras três ruínas por mais de dois anos. Nesta segunda fase, a ideia era Manuel Casal ficar com uma das casas, o seu sócio Frank Eckhard  com outra, e Vítor com a terceira. Todavia, após uma visita do arquiteto às Casas do Côro, um alojamento de luxo localizado no coração da Aldeia Histórica de Marialva, dá-se a epifania. “Porque não fazer aqui um projeto turístico?”. A resposta surgiu em 2008, com a abertura do Villa Pedra Natural Houses ao público. 

O refúgio do sossego

Hoje, com 13 casas de tipologia T1 e T2, todas recuperadas com as técnicas e materiais da região aos quais se adicionou uma decoração personalizada por Vítor Mineiro e todo o conforto que os tempos modernos podem oferecer, Villa Pedra é um aldeamento turístico de referência na região. Além do alojamento, o empreendimento disponibiliza serviços associados ao bem-estar, como massagens e atividades baseadas na natureza, prestados através de parcerias realizadas com empresas locais, mas a filosofia da maioria dos hóspedes que procuram Villa Pedra é descanso e sossego. “As pessoas vêm para aqui para não fazer nada”, diz Marta Gomes, a gestora do dia-a-dia do empreendimento. 

Natural de Almada, Marta decidiu mudar-se para Ansião, berço da família paterna, e há oito anos aceitou o desafio de Vítor Mineiro. “A Marta é a joia da coroa!”, exclama o arquiteto, sublinhando a polivalência e a diligência da responsável. Além de rececionista, anfitriã e gestora, Marta ainda faz uma perninha no “restaurante” do alojamento. "Restaurante", quer dizer, “é uma coisa informal que criámos para responder à escassez e à distância da oferta existente na região”, explica Vítor. 

Foi por isso que  os empresários decidiram criar um espaço com cozinha e salas de refeições em Villa Pedra. “A Marta assumiu a responsabilidade e muito bem, porque o feedback tem sido muito bom”, conta Vítor. Parte do segredo está na tal informalidade. “Sirvo como se estivesse em casa, converso com as pessoas. A ideia é fazê-las sentir num ambiente familiar”, conta Marta. A outra está na gastronomia local, sempre assente nos produtos endógenos, e na decoração do espaço. 

Além de arquiteto, Vítor Mineiro é um artesão que faz dos espaços do Villa Pedra as suas salas de exposição. Na casa de refeições, ninguém fica indiferente à cristaleira recuperada presente na receção, aos candeeiros e à "Monalisa" expostos na grande sala de refeições, ambos recuperados pelo arquiteto, ou à mais de uma dezena de quadros da “Sagrada Família” presentes na sala de jantar com o mesmo nome. Nas casas e nos pátios, um pouco por todo o lado, surgem peças recolhidas pelos proprietários em várias partes do mundo e obras originais de Vítor Mineiro, que aproveitou alguns artefactos encontrados nas ruínas para dar azo à imaginação. 

Desde que o projeto teve início, o tempo fez o seu efeito. Vítor, que inicialmente passava apenas alguns dias por semana em Aldeia de Cima, tem agora ali o seu retiro. O meu médico aconselhou-me a abrandar o ritmo”, diz. “E, como bom ribatejano, que gosta de comer, beber e conversar, acabei por me apaixonar pela terra e pelas gentes. Ainda hoje vou almoçar um galo à casa de uma pessoa que trabalha connosco”, confessa, sublinhando a riqueza gastronómica e a genuinidade da vida e das gentes da região. “Aqui, o pecado à mesa não tem dia marcado”, diz, a rir. Como Vítor, os amigos Manuel e Frank fazem o mesmo e sempre que podem refugiam-se em Villa Pedra. “O Manuel, sempre que pode, refugia-se aqui. Já o Frank vem cá menos vezes”, diz. 

Férias no Campo são pouco valorizadas

No interior, o tempo tem um passo muito próprio e, em mais de uma década, a oferta turística na região pouco ou nada mudou. “Não estamos numa zona particularmente turística", defende Vítor. “Ao início, quando vínhamos para cá, o local onde ficávamos tinha tão poucas condições que acabámos por comprar uma roulotte. E foi na roulotte que eu e o Manuel vivemos nos primeiros anos do projeto”, conta. 

Na opinião do arquiteto, a natureza e o campo não são ainda produtos que cativem os portugueses, mais virados para o turismo de sol e mar. “O passado ainda pesa na conceção que as pessoas fazem da vida no campo, a vida dura, a rusticidade, a falta de condições. Julgo que ainda há este preconceito”, diz, sublinhando que o turista estrangeiro já não tem essa ideia, o que explica a maior assiduidade destes nos alojamentos do interior do país. “Há ainda um grande trabalho a fazer na valorização das férias no campo ou na natureza”, diz. 

Para contrariar esta realidade, Vítor defende que é necessário existirem empresários capacitados e vocacionados para investir na região. Porém, o arquiteto não os vê. A única coisa nova que surgiu aqui nestes anos todos foi um hotel em Penela”, desabafa. Na restauração já não é bem assim. Os restaurantes “Xisto” e o “O Burgo”, ambos nas imediações da Lousã, a “Casa Arménio”, em Tentúgal, e a “Varanda do Casal”, em Casal de São Simão, próximo de Figueiró dos Vinhos, são bons exemplos de valorização da gastronomia regional, “apesar do excesso de formalidade no atendimento”, entende Vítor.

Mais apoio, menos burocracia

Para que a região seja atrativa a novos empreendimentos, Vítor Mineiro defende uma postura mais amiga do investimento e dos empresários por parte das entidades responsáveis pelo fomento da atividade turística na região. “Tem que existir incentivos e poder económico”, diz. Quando se refere a incentivos, Vítor Mineiro diferencia-os em três tipos. 

O primeiro refere-se à abertura e facilitação por parte das autarquias a novos projetos. “Nós com o Villa Pedra, tivemos a sorte de ter uma boa relação com o presidente do município de Soure que nos facilitou o investimento, porque as burocracias são imensas”, conta. A título de exemplo, Vítor Mineiro cita um novo projeto que os três amigos têm em mãos, a recuperação e reconversão do Palácio da Quinta da Boiça, em Penela, num Hotel de luxo. Neste caso, o edil da cidade, que já conhecia o Villa Pedra, também foi diligente. Fez a ponte entre os investidores e os proprietários e o projeto ganhou pernas para andar. Porém, o licenciamento e a obtenção de financiamento “têm sido um martírio”, diz.

Num segundo campo, Vítor sublinha o peso burocrático dos apoios existentes ao investimento no setor. Para financiar parte do investimento, os empresários recorreram ao Portugal 2020, mas as três vezes que submeteram o projeto viram-no sempre recusado. Vítor diz não perceber o porquê, mas confessa que é uma matéria sobre a qual não está muito por dentro. Até o presidente da Câmara [de Penela] não entende”, diz. “É por isso que eu digo que os apoios de que tanto se fala são uma realidade virtual”, remata. Em alternativa, Vítor e os sócios irão agora tentar o IFRRU, um instrumento financeiro que mobiliza recursos dos Programas Operacionais Regionais (POR) para, entre outros objetivos, promover a reconversão e revitalização de imóveis através de empréstimos de longa duração. “O que se está a passar connosco em Penela é um exemplo dos obstáculos que o investimento encontra no nosso país. É triste”, lamenta. 

Por último, o empresário defende uma relação de maior proximidade entre as entidades promotoras do turismo e os empresários. “As nossas entidades gestoras de marca e território são fracas e o Turismo de Portugal faz sobretudo trabalho de secretária”, diz. “Não basta fazer publicidade, é preciso ir ao terreno, ver as dificuldades dos empresários e do setor, e traçar estratégias conjuntas que incentivem o investimento e o turismo na região”, conclui. 

Entretanto, Villa Pedra continuará o seu caminho. A resposta do mercado tem sido boa, e com a normalização das viagens internacionais, Vítor Mineiro espera que a procura estrangeira venha a recuperar o lugar que tinha na lista de reservas antes da chegada da pandemia. Em Aldeia de Cima, ainda há algumas ruínas e o trio de empresários tenciona recuperá-las, mas, para já, é para a recuperação do Palácio da Quinta da Boiça que estão canalizados todos os esforços. 

@iNature. Fotos iNature | Villa Pedra Natural Houses

Villa Pedra Natural Houses