A elevação da Serra da Estrela a Geoparque Mundial da UNESCO em 2020 foi uma espécie de coroação internacional da montanha rainha de Portugal Continental. Um dos reflexos da chancela é o aumento do número de turistas nas chamadas "épocas baixas" e o consequente achatamento da curva de sazonalidade. Quem o diz é Emanuel de Castro (na foto). Mas, para o Coordenador Executivo da Associação Estrela Geopark, a entidade gestora do Estrela Geopark Mundial da UNESCO, novos desafios se erguem perante o galardão alcançado. Numa entrevista em jeito de conversa, o responsável sublinha a importância da marca para o território. "Os municípios podem e devem abusar da marca", afirma. Fala sobre o trabalho feito desde o início da candidatura, em 2016, das relações com os agentes do território e explica a sua visão holística para o desenvolvimento do território, onde a educação tem um papel fundamental. E, no final, recomenda um roteiro de três dias para ver, sentir e saborear o Estrela Geopark. 

A obtenção da classificação Geoparque Mundial da UNESCO aumentou a atratividade e a visibilidade turística da Serra da Estrela?
Claro que sim. E não seria de esperar outra coisa. Um dos objetivos dos geoparques é promover o desenvolvimento dos territórios, a valorização dos produtos locais e dos patrimónios, e uma das formas para conseguir atingir esses objetivos é o turismo. Sim, eu não tenho a mínima dúvida que contribuiu. Ainda não temos dados concretos mensuráveis, mas não tenho a mínima dúvida que, desde o início, e sobretudo depois da classificação, tem-se registado um aumento da procura. Nós temos uma rede alargada de parceiros, sobretudo turísticos, e todos eles nos dizem que tem havido um aumento da procura turística, sobretudo, por parte dos mercados internacionais.
E, mais interessante ainda, o Geopark está a originar uma mudança de paradigma do ponto de vista da procura. Já não temos uma procura turística tão sazonal como tínhamos, muito centrada no inverno e no elemento neve, agora temos já uma procura muito grande no verão e, este ano, está a acontecer uma coisa maravilhosa: em Manteigas, por exemplo, o outono está a ser uma época alta. Ainda ontem estive com um parceiro nosso da hotelaria em Manteigas que me disse estar desde outubro com uma taxa de ocupação superior a 80%.

E essa taxa de ocupação elevada não estará relacionada com o contexto pandémico e com o consequente incremento da procura do turismo no interior e de natureza?
Sim, também pode, mas não vejo estes dados e esta realidade como algo transitório e decorrente da pandemia. A pandemia funcionou como um motor para mudar algumas práticas e alguma realidade, nomeadamente, a redescoberta do território, do interior e do turismo de natureza, mas não acho que seja transitório. Julgo que é uma tendência que veio para ficar. As pessoas descobriram, e não falo apenas do Estrela Geopark, mas de outros territórios, uma qualidade e oferta turística que não conheciam.
É claro que a pandemia não foi boa, mas despoletou a procura turística por um mercado e um destino desconhecido que nem era percecionado positivamente, e as pessoas perceberam que existem recursos, oferta, serviços, e unidades de alojamento de grande qualidade. Logo, acho que não é transitório, é uma tendência que veio para ficar. Até porque já vinha a verificar-se antes da pandemia. Os anos 2018 e 2019 foram muito fortes para o turismo na Serra da Estrela.

"O Geopark está a originar uma mudança de paradigma do ponto de vista da procura. Já não temos uma procura turística tão sazonal como tínhamos, muito centrada no inverno e no elemento neve, agora temos já uma procura muito grande no verão e, este ano, está a acontecer uma coisa maravilhosa: em Manteigas, por exemplo, o outono está a ser uma época alta."

Esse crescimento traz algumas “dores”, como é o caso do excesso de turistas em espaços naturais. Há sinais de massificação?
Há e isso assusta-nos, mas esse é um desafio que temos de enfrentar. Se não fosse para atrair população e visitantes não faria sentido existir o Geopark. Não estejamos aqui com meias-verdades. A grande diferença é que o Geopark tende a trabalhar e a promover o turismo de acordo com princípios de sustentabilidade e preservação do património que deram origem à classificação, nomeadamente, em relação ao património geológico.
Agora, há locais massificados, como é o caso da Torre, e isso preocupa-nos. Temos que encontrar mecanismos que garantam uma redistribuição da procura turística na Serra da Estrela pelo território no seu todo e não apenas concentrado em dois ou três pontos. Mas eu diria que, além da Torre, não temos ainda locais massificados.

O geoturismo como estratégia de desenvolvimento

E no caso de um turismo específico dos geoparques, o geoturismo. Também aumentou ou é um turismo mais difícil de promover e um nicho que que ainda tem de ser trabalhado?
Eu não acho que o geoturismo seja um produto turístico. Para nós, aqui no Geopark, o geoturismo é uma estratégia turística. Porque é que o turismo de natureza não pode ser geoturismo? Porque é que num produto de turismo de natureza não pode também haver valorização da geodiversidade, da paisagem? Porque é que a saúde e bem-estar não pode ser também geoturismo? A fruição de uma insurgência termal não é geoturismo? É. A diferença está na estratégia que os territórios trabalham para alavancar os seus produtos turísticos e isso é que pode ser trabalhado de uma forma geoturística.
A própria Declaração de Arouca dá a visão que o geoturismo é muito mais que um produto, porque o que muitos geólogos dizem ou defendem é que o geoturismo é um turismo geológico, mas a pensarmos assim…. É óbvio que os geoparques abriram a possibilidade ao turismo geológico, até porque até ao aparecimento dos geoparques pouco se fazia nesta matéria, o próprio Parque Natural da Serra da Estrela nunca teve grande vocação para a valorização da geodiversidade, sempre esteve mais virado para o património biológico, a biodiversidade, e a geodiversidade foi sempre o parente pobre. Ao aparecer o Geopark, que veio dar visibilidade a 144 locais – geossítios -, contar a sua história, se o número de visitantes (geoturistas) tiver aumentado em 100, que deve ser mais do dobro dos que tinha antes, ótimo. Mas, para nós, o geoturismo é uma estratégia que se traduz na valorização do património geológico, paisagístico, mas também na sua relação com a dimensão cultural dos territórios e nas potencialidades de cada um. Isto é, é mais uma visão holística do que uma divisão ao nível de um segmento de mercado ou de um produto.

Faz parte de uma visão integrada para o desenvolvimento do território.
Nós trabalhamos com os municípios e os parceiros vários produtos que vão sempre beber ao geoturismo. Por exemplo, estamos neste momento a trabalhar na Grande Rota do Estrela Geopark. São 400 quilómetros que vão aproveitar muitos dos percursos já existentes, onde vamos dar enfase à visitação e interpretação do património geológico e das paisagens, mas numa perspetiva ecoturística. Sempre se fizeram caminhadas no Vale Glaciar, mas a experiência turística não resulta só da caminhada, resulta do que pode ser fruído numa caminhada pelo Vale Glaciar, como a história daquela paisagem, o conhecimento que pode ser transmitido, não só pelo Geopark, mas também pelos agentes locais, pela estadia no território e pela degustação de uma comida que tem uma relação com o território, com a geologia, as origens e os modos de vida. Aliás, a marca GEOfood, à qual os geoparques portugueses estão associados, pressupõe a promoção dos produtos alimentares locais e a sua relação com a história e realidade geológicas de cada território. Para nós, é isto que é estratégia ecoturística, não é levar os turistas a visitar formações geológicas, embora também possa ser. Pode haver um nicho de mercado, mas se formos por aí não é necessário existir um geoparque.

Já existe sentimento de pertença entre os residentes e os municípios? Há uma participação ativa de todos na estratégia e nas atividades do Geopark?
A questão do sentimento de pertença e da relação entre os vários agentes do território vai ser sempre o grande desafio do Estrela Geopark e dos geoparques, no geral. Não é fácil, nem se consegue criar o sentimento de pertença de um dia para o outro ou de um ano para o outro, e mesmo quando existe ele é muito heterogéneo. Se eu olhar para o território do Geopark, tenho municípios onde a relação com o território é mais forte e intensa do que outros, não só do ponto de vista da estrutura do próprio município, mas dos seus residentes. Estamos ainda muito longe de poder afirmar que há um efetivo sentimento de pertença dos residentes em relação ao Geopark. Esse é o objetivo, trabalhamos para isso e notamos que começamos a ter uma expressão cada vez maior na comunidade, mas ainda é muito escassa.
Em relação aos municípios, enquanto estruturas de gestão do território, nem todos participam da mesma forma e é normal que isso aconteça. De uma forma geral, tem havido um envolvimento satisfatório desde o início do Geopark e a classificação obtida no ano passado veio reforçar esse envolvimento, mas acho que ainda pode ser feito um esforço de ambas as partes para que exista uma maior integração, não só da mensagem do geoparque, mas também da forma de comunicar o Geopark. Entendo que os municípios podem e devem aproveitar muito mais a marca Geoparque Mundial da UNESCO, porque é uma chancela internacional que os veio diferenciar e, afinal, o que os municípios procuram são elementos que os distingam e diferenciem de outros territórios. A marca UNESCO cria essa distinção e diferenciação. É um reconhecimento internacional com um grande valor acrescentado que deve funcionar como chapéu, como âncora de um território, e ser gerida de uma forma holística, porque quando se trabalha uma atividade, evento, estrutura, no município da Guarda, isso não vai beneficiar só o município da Guarda, mas todo o território do Geopark. Cada município pode e deve continuar a ter a sua estratégia de desenvolvimento, mas existe uma dimensão supramunicipal que pode ajudar e orientar as estratégias individuais.

"Estamos ainda muito longe de poder afirmar que há um efetivo sentimento de pertença dos residentes em relação ao Geopark. Esse é o objetivo, trabalhamos para isso e notamos que começamos a ter uma expressão cada vez maior na comunidade, mas ainda é muito escassa."

E a relação com o Instituto da Conservação da Natureza (ICNF), que gere o Parque Natural da Serra da Estrela, que está dentro do território do Estrela Geopark, como está a correr?
Temos trabalhado em parceria e cooperação, e desde o primeiro momento e em várias frentes. Estamos a trabalhar na dinamização de espaços interpretativos, como é o caso do da Torre, que está fechado porque tem que ser alvo de obras de remodelação, na substituição de toda a estrutura interpretativa do território, criando uma imagem comum, e em outras dimensões de forma a criar estratégias de preservação, valorização e conservação do património da Serra da Estrela. Estamos também integrados num grupo de trabalho liderado pelo ICNF para uma possível revisão do plano de ordenamento que inclua um conjunto de atividades de desportos de montanha, de natureza, como é o caso da escalada. A questão da prática de desportos de montanha tem de ser revista, porque a proibição de uma forma linear nem sempre é a melhor solução. Esta proibição pela proibição muitas vezes não se entende e vai contra a estratégia do Geopark, porque o ICNF evoluiu para uma preservação feita pela proibição. Em alguns casos terá de ser, não digo que não, mas a estratégia de um geoparque é que a conservação seja feita pela educação, porque isso faz toda a diferença na lógica e no envolvimento das populações e é isso que nós tentamos trabalhar com o ICNF de modo que haja esse entendimento, e estamos a conseguir dar alguns passos. Estamos também a trabalhar com o ICNF e com o Município de Manteigas para encontrar uma solução para o lixo recorrente deixado no espaço do Covão da Ametade.

Os agentes privados têm procurado a associação com o Estrela Geopark?
Sim, cada vez mais. Numa primeira fase, foi o Geopark que foi ter com as empresas e os empresários, hoje são os agentes que vêm ter connosco a dizer que querem ser parceiros do Geopark. Isto aconteceu sobretudo este ano, fruto de um trabalho mais intenso junto dos parceiros, nomeadamente, com a criação do Cartão de Sustentabilidade e do GUIA. E estamos neste momento a trabalhar em várias atividades conjuntas, de forma a criar valor acrescentado para os produtos dos parceiros.   

A importância do trabalho em rede

O Estrela Geopark associou-se à iNature. Qual é a mais-valia de fazer parte de uma rede colaborativa alargada a diversos territórios?
As redes colaborativas são muito importantes, desde logo numa perspetiva de escala territorial e, por outro lado, numa perspetiva de existir uma estratégia aglutinadora para o território que não se cinja à soma de um conjunto de ações, mas que seja uma forma múltipla e sinergética de criar essas ações.
Os territórios não são ilhas, não estão isolados, são locais inseridos num contexto territorial e muitas vezes partilham as mesmas ambições e os mesmos desafios. Ter uma estratégia que consiga ligar estes territórios e dar-lhes um elemento de ligação é muito importante para o todo e para um Geoparque Mundial da UNESCO. Repare, a marca Geoparque Mundial da UNESCO é muito recente, ainda não tem a notoriedade e a visibilidade que outras marcas UNESCO, como o Património da Humanidade ou a Reserva da Biosfera, que já tem 40 anos de existência. Logo, o facto de estar integrado numa rede colaborativa acaba não só por dar mais visibilidade ao trabalho do Geopark, como beneficiar das boas práticas e da estratégia conjunta.

"Os territórios não são ilhas, não estão isolados, são locais inseridos num contexto territorial e muitas vezes partilham as mesmas ambições e os mesmos desafios. Ter uma estratégia que consiga ligar estes territórios e dar-lhes um elemento de ligação é muito importante para o todo e para um Geoparque Mundial da UNESCO."

Há também um trabalho conjunto a fazer entre os geoparques.
Sim. E tem sido esse o caminho que o Estrela Geopark tem vindo a fazer desde que entrou para a rede de Geoparques Mundiais da UNESCO. Os cinco geoparques portugueses devem trabalhar de forma conjunta, porque estamos a comunicar uma marca e uma estratégia comum. Há muitas oportunidades e desafios comuns e, de facto, muito trabalho a fazer para afirmar a marca Geoparque Mundial da UNESCO. Aliás, isto é algo que já está a ser feito através de um grupo de trabalho criado em 2020 com apadrinhamento do Turismo de Portugal, que nos tem ajudado a criar, estruturar e operacionalizar ideias de rede.

Portugal tem cinco geoparques com a chancela UNESCO e há mais dois em processo de candidatura. Este crescente número de geoparques, num país tão pequeno, não pode ter um efeito negativo ou de banalização da marca?
Sim, pode. Os territórios são livres de apresentarem candidaturas, tal como a Serra da Estrela fez ao entender que tinha condições para ser classificada, mas o interesse dos territórios já classificados deve ser preservado para não se cair no risco da vulgarização da marca Geoparque Mundial da UNESCO. Se uma das grandes mais valias que a marca UNESCO traz aos territórios é a capacidade de os diferenciar e de os distinguir, conferindo-lhes um valor que outros territórios não têm, se 80% da região Centro for classificada não se diferencia. Portanto, devem existir mecanismos para "apertar a malha" das condições ou critérios que levam à classificação. Este é um trabalho que deve ser feito pela Comissão Nacional da UNESCO, porque é necessário perceber o número de geoparques que o país deve ter.
Eu não estou a dizer que concordo ou discordo das novas candidaturas, porque não tenho conhecimento científico, nem conhecimento do terreno para achar que este ou aquele território têm condições para serem classificados. Se eles estão a preparar uma candidatura é porque consideram que as têm. Agora, acho que se deve pensar, a uma outra escala, se devemos continuar a criar geoparques de uma forma quase ilimitada.

O território do Geopark está visado numa série de áreas possíveis prospeção e exploração mineira (em consulta pública até 10 de dezembro). Isto não o preocupa?
Sim, preocupa. A nossa posição é simples: tal como é excluída a área do Parque Natural, as áreas classificadas como Geoparque Mundial da UNECSO deviam também estar fora das áreas possíveis de prospeção e exploração.  No caso do Estrela Geopark, 23% do território está dentro das áreas que estão em consulta pública. É muito. E dentro desses 23% estão vários geossítios. Estamos a elaborar um documento para participar na consulta pública onde fundamentamos científica e tecnicamente a nossa posição. Num geoparque, que tem como enfoque a valorização do património geológico, e uma das condições é que este património não seja destruído nem delapidado, não pode haver exploração mineira. O Geopark não pode aceitar uma exploração mineira a céu aberto, paredes meias com um local de interesse geológico. São duas coisas incompatíveis.

"Estamos a elaborar um documento para participar na consulta pública onde fundamentamos cientificamente e tecnicamente a nossa posição. Num geoparque que tem como enfoque a valorização do património geológico, e uma das condições é que este património não seja destruído nem delapidado, não pode haver exploração mineira."

O Estrela Geopark escolheu seis geoparques internacionais para estudar. Que práticas já viram lá fora que gostariam de ver implementadas aqui?
Uma das nossas estratégias dentro da rede dos geoparques é “beber” dos exemplos de boas práticas já existentes e temos estado a trabalhar com outros geoparques nesse sentido, mas o Estrela Geopark também já é exemplo em alguns campos. No Brasil e no México, nos geoparques Araripe e Mixteca Alta, respetivamente, está a ser criada uma rede de ciência e educação inspirada no nosso caso.
Um exemplo que cedo importámos foi a forma como devem ser feitos os nossos programas escolares. A forma como alguns geoparques espanhóis olham para os curricula escolares e depois os convertem em visitas das escolas aos geoparques é notável e um trabalho que queremos reproduzir. Outro exemplo onde nos inspirámos está relacionado com os painéis interpretativos. O geoparque do País Basco - Geopark da Costa Basca – trabalha a questão da interpretação, e a comunicação da ciência de uma forma acessível a todos.

Preservar pela educação

Na estratégia do Estrela Geopark, a educação desempenha um papel fundamental. É a tal valorização e preservação pela educação?
A educação tem uma importância fundamental para o Estrela Geopark. Se eu tivesse que escolher apenas uma área para trabalhar, seria a educação. Até na perspetiva que já falámos, o sentido de pertença. Dentro da população, a comunidade que mais conhece e valoriza o Geopark neste momento é a escolar, docente e discente. E isto é resultado de um trabalho intenso que temos desenvolvido desde 2016 e 2017 nas escolas do território, mas também fora dele. Temos recebido milhares de alunos no nosso território. A educação é fundamental não só pela mais-valia de podermos educar e transmitir valores para as gerações vindouras, mas também de aproximar os alunos do valor do património geológico que a Serra da Estrela e outros geoparques têm, e da capacidade que estes territórios têm para se transformarem em salas de aula ao ar livre e alterar os processos de aprendizagem das geociências. 

O projeto “Estrela Educa” faz parte dessa estratégia.
O Estrela Educa é um projeto digital que acaba por funcionar como uma plataforma onde disponibilizamos um conjunto de recursos educativos digitais para alunos e professores. Mas o nosso trabalho na educação vai muito além do “Estrela Educa”, passa por um contacto muito próximo com os professores e as escolas. Para dar um exemplo, todas as escolas do território são parceiras do Geopark, e é engraçado que começámos já a receber pedidos de parceria por parte de escolas fora do território. E, depois, há também um grande trabalho ao nível da formação dos professores. Nós, todos os dias temos atividades em escolas. Até ao final do primeiro período, não temos um único dia em que não estejamos presentes numa escola com palestras, passeios e outras atividades. Por exemplo, no Dia Internacional da Montanha – 11 de dezembro – vamos estar uma semana nas escolas da Covilhã com atividades direcionadas para o segundo e terceiro ciclos. Vai ser “a semana da montanha”.

"Se eu tivesse que escolher apenas uma área para trabalhar, seria a educação. Até na perspetiva que já falámos,
o sentido de pertença. Dentro da população, a comunidade que mais conhece e valoriza o Geopark neste momento é a escolar, docente e discente."

Um outro vetor estratégico é a promoção. Como e em que canais é que têm promovido o Geopark?
Dentro da promoção, seguimos duas estratégias paralelas. Uma de promoção externa e outra de promoção interna. Ainda é necessário promover o Geopark internamente, junto da população do território. Nesta, além da utilização das redes sociais, do site, do “Estrela Educa” e do GUIA, criámos as portas de entrada, que são espaços de informação nos nove municípios que integram o Geopark. Todos os meses temos uma coluna mensal em dez jornais regionais, porque são os jornais mais lidos pela população, e estamos também a tentar chegar às rádios regionais, discutindo e apresentando temas diversos que dizem respeito ao Geopark.
Na comunicação externa estamos a apostar em vídeos promocionais, que já se faziam no passado, mas mudámos a estratégia. Criámos um mote intitulado “Estrela, um território em mudança”, que pretende mostrar isso mesmo, que estamos num território com futuro e com esperança. É um conjunto de quatro episódios, dois dos quais já foram publicados no nosso canal do Youtube, no nosso site e redes sociais. Tentamos também ter presença através de publicidade e das feiras, mas isso é o tradicional.

Estamos no final do ano e presumo que já tenham trabalhado o Plano de Atividades para 2022. Pode adiantar alguns pontos agendados para o próximo ano?
O Plano ainda está a ser discutido, mas já temos algumas coisas concretas. O próximo ano vai ser o ano para lançar, divulgar e testar o GUIA. Contamos apresentar a versão Web e a aplicação finais ainda este ano ou no início de 2022. Em outubro, vamos voltar a organizar a Conferência Internacional 3MG - Montanhas Mediterrânicas e Património Geológico, que já vai na terceira edição. Temos algumas apostas nas questões ligadas ao astroturismo e à qualidade do céu, numa perspetiva GEOsky, e iremos relançar o tema dos produtos locais, associada à marca GEOfood, com a criação de alguns eventos de rua.
Será também decisivo para a concretização da Grande Rota do Estrela Geopark – pedestre e ciclável. O nosso objetivo era tê-la pronta no outono, mas julgo que talvez só o consigamos lá para a primavera de 2023. E, por fim, iremos apostar também na área da cultura e das tradições, com a criação de um espaço de open science e de acervo de memória em formato digital.

O que ver e fazer num passeio de três dias pela Serra da Estrela

Para terminar, e porque estamos perante um profundo conhecedor do território, gostaria que me fizesse um roteiro para uma visita familiar de três dias à Serra da Estrela. Imaginemos que entro pela Covilhã.  
Três dias parece-me pouco tempo para conhecer a Serra da Estrela (risos). Partindo da Covilhã, o meu conselho é subir à Torre, fazendo algumas paragens pelo caminho. Recomendo pausas nas Penhas da Saúde, Nave de Santo António, Covão do Boi e Vale Glaciar de Alforfa. Todos estes locais estão munidos de placares interpretativos do Geopark que permitem perceber o que se vê. Depois da Torre, recomendaria a descida até Manteigas pelo Vale Glaciar do Zêzere, com paragem no Covão da Ametade. Esta etapa faz-se bem de carro numa manhã que terminaria com a degustação de um prato à base de feijoca. Da parte da tarde, aconselhava uma ida até às Penhas Douradas e fazer uma caminhada. Um percurso entre o Fragão do Corvo e o Vale do Rossim seria muito interessante.

No segundo dia, recomendaria uma visita à zona de Seia, Gouveia, com descida pelo Sabugueiro. Em Seia seria muito interessante fazer uma visita ao Museu Natural da Eletricidade, dada a ligação da Serra ao aproveitamento hidroelétrico. Depois, consoante a época do ano, seguir para as aldeias no sopé da serra – Lapa dos Dinheiros, Loriga – para contemplar as paisagens e almoçar cabrito ou javali. Ah! Não esquecer de provar o bolo negro de Loriga. E, sobre o queijo, que é transversal a toda a região serrana, acho que nem vale a pena falar.

Dali seguir para Gouveia para fazer mais um percurso pedestre que apontasse para terminar o dia nos Casais de Folgosinho. O jantar podia ser na aldeia de Folgosinho.

No terceiro dia, podiam passar por Celorico da Beira e Linhares da Beira. Os dois locais são merecedores de uma manhã inteira, pelo menos. Se não houver tanto tempo, é imprescindível visitar o castelo de Celorico. Neste caso, a manhã terminaria na Guarda, com passagem e paragem obrigatórias na aldeia de Videmonte. Nesta região, aconselho os enchidos (risos).

À tarde, seguir para Belmonte. Além de ser uma Aldeia Histórica é também um geossítio e tem uma componente cultural ligada à presença judaica muito interessante. Depois, para terminar, e já na Covilhã, uma experiência de turismo industrial ligado ao design e aos lanifícios, no New Hand Lab, por exemplo, no Museus dos Lanifícios ou até no novo museu da cidade, que conta a história da cidade e da região e seria uma forma excelente de terminar o passeio.  

@iNature